quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

OPINIÃO




Um Divórcio por Mútuo Consentimento?
Os Cidadãos e a Política na Guiné-Bissau.
Dr. Carlos Emerson GomesLicenciado em Jornalismo e Especialista em Gestão de Fronteira pelo Centro Internacional Kofi Anann pela Manutenção da Paz e Segurança/Accra.

A noção de uma crise da democracia não é necessariamente recente. Em meados da década de setenta, o futuro da democracia era encarado com pessimismo e Willy Brandt- na altura Chanceler da República Federal da Alemanha- chegaria mesmo a prever que: restam apenas mais 20 ou 30 anos de democracia; depois disso irá afundar, impotente e sem rumo, no mar de ditadura que a rodeia, e se essa ditadura vier de um politburo ou de uma junta não fará muita diferença.
Willy Brandt (The Economist, 23 de Março 1974)

Os mais de 38 anos que nos separam desta afirmaçao têm refutado a previsão de Brandt. O caso guineense é, neste contexto, emblemático. Mais precisamente, no ano de 1992- Guiné-Bissau daria inicio ao seu processo de transição democrática, pondo fim ao mais longo regime autoritário do PAIGC do século XX. E as implicações dessa momentosa madrugada de democracia transcenderiam o nosso país. Como Samuel Huntington salientaria, a revolução assinalou também o inicio da chamada “terceira vaga de democratização”- um periodo da história do planeta em que a democracia tem progredido significativamente. Com efeito, mais de trinta anos depois, o cenário é radicalmente distinto daquele que o chefe do executivo alemão previra: o número absoluto de democracias no mundo mais que triplicou desde 1974; a proporção de regimes que são democráticos mais que duplicou, e a democracia prevalece em mais de 80 por cento dos regimes no mundo, abrangendo mais de metade da população mundial. Para parafrasear Brandt, foram as ditaduras que, impotentes e sem rumo, deram lugar a regimes democráticos- com Guiné-Bissau  a liderar este processo de mudança.

Se podemos identificar na terceira vaga um aumento considerável no número de democracias, vale a pena salientar uma outra transformação igualmente relevante, que teve lugar no debate democrático. Assim, com a terceira vaga, o debate deixa de ser sobre os méritos da democracia liberal(em oposição a outros regimes) para se centrar na qualidade da democracia. A definição conceito está longe de ser fácil.
Contudo, podemos apontar o modelo de Diamond e Morlino (2004) como uma síntese eficaz de um conceito necessariamente complexo. Neste, a avaliação da qualidade da democracia ocorre em três níveis distintos: os procedimentos democráticos (que refletem inter alia a competição eleitoral, o enquadramento legal e o accountability vertical e horizontal dentro do sistema político); o conteúdo da democracia ( se garante efetivamente a liberdade e igualdade-política, social e civil- dos seus cidadãos); e os seus resultados- a avaliação que os cidadãos fazem do seu funcionamento, e se esta se mostra capaz de formular e executar políticas públicas que reconheçam e satisfaçam as exigências dos cidadãos e do interesse público.

Esta mutação no debate espelha também a mudança na relação entre os cidadãos e a política que ocorreu nos últimos dez anos no nosso país. Aliás, um dos traços comuns nos diferentes modelos de qualidade da democracia prende-se precisamente com importância da relação entre cidadãos e política- um elemento central da democracia. Como Putnam et al. Referem  no seu estudo das atitudes e opiniões dos cidadãos em democracias consolidadas, se sempre houve cinismo e censura pública em relação à política, estes atingem agora niveis sem precedentes. 

As opiniões pública guineense nos domínios económico, social e político- confirmam o distanciamento dos cidadãos em relação às instituições políticas. As opiniões indicam que 75 por cento dos cidadãos guineense declaram não confiar nos partidos políticos; 63 por cento afirmam não confiar nos seus governos; 85 por cento expressam desconfiança em relação ao parlamento do país; e 61 por cento afirmam desconfiança na Presidencia da República.

Saliento, as atitudes dos guineenses em relação ao sistema político podem ser caraterizadas por 3 D, num irónico paralelo aos compromissos da luta de libertação nacional. Assim, se por um lado os guineense surgem como democratas, na medida em que existe um apoio generalizado à democracia enquanto regime, eles mostram também descontentamento com o desempenho das instituições políticas e outputs, e mesmo desafeição- uma desafeição marcada por sentimentos de desinteresse e distanciamento em relação a estas instituições e as coisas públicas.

Ao mesmo tempo, este distanciamento entre cidadãos e a política não é necessariamente negativo para governantes- pelo menos a curto prazo. Como refere Martin Wattenberg (2000), obter mandatos com menos votos” é o equivalente da General Motors obter os mesmos lucros com menos carros vendidos”. O afastamento entre os cidadãos e política leva a menor accountability ( ou, pelo menos, accountability perante menos cidadãos) e, consequentemente, maior autonomia e liberdade de ação para os agentes políticos. O argumento de Wattenberg sugere assim um “ mútuo consentimento” neste aparente divórcio entre cidadãos e a política.
Inevitavelmente a história do nosso país ajuda a explicar este distanciamento.

Guiné-Bissau viveu durante muito tempo sob regime não-democrático, e mesmo as experiências democráticas anteriores ao Estado novo estavam longe de envolverem plenamente os cidadãos.
Como tal, os sentimentos de distância do poder e de afastamento da política não são recentes. Ao mesmo tempo, a história relembra-nos também que estes fenómenos não são inelutáveis podem ser rapidamente alterados.
O seu sucesso foi, como salienta Huntington, inesperado- e contudo marcaria o inicio de um amplo processo de democratização a nível global.
Como então ultrapassar os desafios contemporâneos da democracia? Tal como em 1963, a resposta talvés resida numa revolução- sem armas, que se baseie antes na participação política dos cidadãos, na transparência ética de uns e de outros. Afinal, como Thomas Jefferson afirmou um, “ Cada geração precisa de uma nova revolução”.

Só assim que podemos, evitar o emprego por filhação partidária, nepotismo, e dar previlégio ao saber académico. Dar prioridade aos quadros jovens para que possam relançar e tirar o país da corrupção generalizado.
Hegel disse que, para construir um povo não é basta construir estradas,pontes e pagar salários, mas sim, é preciso fazer o trabalho de socialiazação. Quer dizer investir seriamente na educação, para evitar dos pensamos nepotistas e do conformismo. E nada no mundo é estático, tudo está em constante processo (vir-a-ser), tudo é histórico, portanto. O Cidadão guineense em movimento é o Espírito do Mundo, que representa a consciência humana geral, comum a todos os cidadãos do mundo e manifesta na ideia do desenvolvimento socioeconómico do seu país. A Democracia é concebida enquanto história do progresso da consciência da liberdade. As formas concretas de organização política e social na Guiné-Bissau não correspondem a imperativos ditados pela consciência humana, ou seja, a realidade é determinada pelas ideias dos cidadãos, que concebem novas ideias de como deve ser a vida social em função do conflito, intrigas entre as ideias de liberdade e as ideias de coerção ligadas a condição natural (selvagem imposta) ao cidadão guineense. 

A história da Democracia na Guiné-Bissau é a história de luta de classe política e económica”.
A teoria democrata é, substancialmente, uma crítica radical das sociedades políticas corruptas e ditatorias. Mas é uma crítica que não se limita a teoria em si, aliás, se posiciona contra qualquer separação drástica entre teoria e prática, entre pensamento e realidade, porque essas dimensões são abstrações mentais (categoria analíticas) que, no plano concreto, real, integram uma mesma totalidade complexa da democracia guineense.
Pergunto aos cidadãos guineenses“Quem deve governar? Ou como podemos afastar um governante sem que houve derramamento de sangue? IN Karl Popper.
Por: Carlos Emerson Gomes